segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eu fiz a conta

Eu não compro o Público. É uma questão de princípio, atentos os princípios do referido matutino e, consequentemente, para satisfazer à minha inabalável vontade de ter informação com um mínimo de qualidade.

No entanto, uma campanha promocional permitiu-me ter este jornal de forma gratuita e, de vez em quando, lá o levo para casa, especialmente às sextas-feiras, por causa do imperdível Inimigo Público, suplemento cujo conteúdo valorizo mais do que uma parte significativa do próprio jornal.

De facto, é compreensível que se questionem todas as informações que este jornal transmite, suspeição que encontra a sua razão de ser, em parte, na postura publicamente assumida do seu anterior director, José Manuel Fernandes, cujo "estilo jornalístico" quase se poderia comparar a um correspondente oficial da São Caetano à Lapa, estilo que não desapareceu com a sua saída do jornal. A muito questionável imparcialidade deste jornal é visível, também e apenas a título de exemplo, aqui e aqui.

Mas se a tropelia informativa já é escandalosa, a tentativa de ludibriar o leitor é algo verdadeiramente repugnante. Refiro-me à edição do passado dia 1 de Outubro, cuja manchete de capa indicava "Quem vai pagar a conta". Na sua página 4, é apresentada uma tabela onde, de forma esquemática e de simples compreensão, é apresentado o impacto das diferentes "medidas de austeridade" propostas para o Orçamento de Estado para 2011.

O problema é que aquelas contas estão incrivelmente erradas.

Eu compreendo que o objectivo seja impressionar, chocar, o leitor. Transmitir-lhe a ideia que estas medidas vão causar um impacto terrível em todos. Isso, digo eu, agrada à São Caetano. Nem que, para tal, se tenha que recorrer ao exemplo de um casal de funcionários públicos que ganhe €6.000.

Mas avancemos. Já que o jornal Público não soube fazer as contas, fi-las eu. Assim, rapidamente e sem grande ciência, com recurso a uma folha de cálculo. Ao contrário do jornal Público, eu explico aqui como cheguei a estes valores. Ao contrário do jornal Público, eu não sou pago para preparar esta informação, nem o leitor tem que pagar para a consultar. E, a quem tiver dúvidas, poderei remeter o ficheiro preparado em Excel, sem qualquer problema.

Na referida tabela, o jornal Público elenca o impacto das medidas de austeridade em 4 "perfis":
  • Um casal de funcionários públicos (na tabela, abreviadamente, "FP") que aufere €6.000 de remuneração mensal bruta, com dois filhos em idade escolar;
  • Um outro casal de funcionários públicos que aufere €3.250 de remuneração mensal bruta, com dois filhos em idade escolar;
  • "Família de trabalhadores do privado", presumindo eu que se trate de um casal que trabalhe no sector privado, com remuneração mensal bruta de €1.800, e dois filhos em idade escolar;
  • Um pensionista.

Até aqui, tudo bem. A "paródia" começa depois.

O jornal Público assume pressupostos absolutamente ridículos para alcançar os valores enunciados, como o consumo das famílias basear-se no seu rendimento bruto ou a totalidade do consumo das pessoas ser realizada em artigos de IVA à taxa mais alta (ninguém compra leite, pão - é tudo só em produtos de IVA a 21%). Outro pressuposto absurdo é considerar que os funcionários públicos irão fazer descontos para a Caixa Geral de Aposentações considerando um valor de remuneração superior ao que recebem, o que, simplesmente, não faz qualquer sentido.

Por forma a obviar o malabarismo numérico, considerei o rendimento disponível dos agregados familiares considerados, ou seja, descontei os valores que são retirados para Caixa Geral de Aposentações / Segurança Social, bem como as retenções na fonte de IRS. No que toca à parcela do consumo que corresponde à taxa mais elevada, lancei uma consulta pública (na qual o meu perfil de consumo não foi considerado) tendo a média final sido de 60% de gasto em artigos ou serviços de taxa mais alta.

Face ao exposto, eis a tabela publicada pelo jornal Público no dia 1 de Outubro de 2010, devidamente corrigida (deverá clicar na imagem para a ver no seu tamanho original).



Um jornalista tem uma grande responsabilidade. Quando escreve uma notícia, deve assegurar a veracidade e um mínimo de fiabilidade daquilo que está a transmitir.

E eu lamento muito, mas isto não é informar. Isto não tem outra designação possível a não ser um insulto à inteligência do leitor.

Numa altura destas, andar a brincar com estas questões é de uma irresponsabilidade inominável.

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